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A deficiência auditiva e o mercado de trabalho

A deficiência auditiva e o mercado de trabalho

Texto extraído de adap.org.br

Um dos assuntos que está em alta nos debates dos dias atuais é a inclusão das pessoas com deficiência em todas as esferas da vida social. Entre os diversos setores da vida pública, está o universo do trabalho e as questões que o rodeiam. Ter uma profissão costuma ser um aspecto de grande importância na vida dos adultos na atualidade, possuam eles deficiência ou não, como explica a psicóloga Carolina Câmara de Oliveira. “Ter um trabalho é fundamental para todos os seres humanos. Há muitos aspectos envolvidos no ato de trabalhar, tais como dinheiro, realização pessoal, sonhos, objetivos, enfim, o trabalho faz parte da vida do sujeito. Lógico que isso não é diferente para a pessoa com deficiência, pois essa também é um sujeito, tem essas mesmas necessidades. Adiciona-se a esse fato a questão da autoestima, a pessoa  se perceber, ter certeza de que é capaz, que a deficiência não a limita de trabalhar, de fazer parte do mundo real, de conquistar sua independência. A deficiência pode limitar sim, porém, ela não deve aprisionar a pessoa, o que pode acontecer é algumas famílias e a sociedade isolarem o indivíduo com deficiência da vida real”, diz.

O preconceito e o mito da incapacidade da pessoa com deficiência, por mais que foi, e atualmente seja combatido por diversos setores, ainda permanece na cultura brasileira, limitando a mentalidade social na hora de se contratar um profissional com deficiência. Patrícia Rodrigues Witt, terapeuta ocupacional e que também possui deficiência auditiva de grau severo/profundo, conta sobre o “rótulo” imposto pela sociedade a esses indivíduos. “Existem PCD’s qualificados para o mercado de trabalho que estão sempre em busca de vagas equivalentes aos seus conhecimentos e experiências profissionais, mas infelizmente a sociedade tem rotulado este nicho como pessoas “vulneráveis”, dificultando ainda mais o acesso deles ao mercado de trabalho, para então serem reconhecidos”, afirma.

A psicóloga Carolina, baseada em suas próprias vivências, também concorda com o estigma que costuma marcar a pessoa com deficiência no mundo do trabalho. “A sociedade ainda não olha a pessoa com deficiência como um ser humano comum e simplesmente com a diferença da deficiência. Falo isso porque vivo essa realidade, sou psicóloga e tenho paralisia cerebral. Para mim é nessa ordem que eu vejo, o profissional na frente da deficiência, mas, infelizmente, não é assim que a sociedade me vê. Para eles, eu tenho paralisia cerebral e estudei psicologia. Enxergam primeiro a minha deficiência, para só depois, bem depois, me perceberem de fato”.

A legislação em alguns países

Buscando garantir o acesso a um emprego pela pessoa com deficiência, algumas leis foram criadas pelo governo brasileiro para produzir uma maior oferta de oportunidades a este seguimento da população. A Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, determinou que até 20% das vagas em cargos públicos por concursos fossem reservadas para indivíduos com deficiência. Já a Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, popularmente conhecida como Lei de Cotas, estabelece uma porcentagem obrigatória de trabalhadores com deficiência que empresas com mais de 100 funcionários devem cumprir na contratação. Na imagem ao lado estão ilustradas as devidas proporções de funcionários com deficiência que as empresas têm que contratar segundo o número crescente de trabalhadores empregados no total.

Para cada país, o uso ou não de cotas (e suas porcentagens) tende a variar conforme a legislação local. Em depoimento para uma de nossas outras reportagens, Renata Orsi, brasileira implantada que mora no exterior há quase dois anos, explicou como o respeito às deficiências e a igualdade de oportunidades nos Estados Unidos são melhores do que aqui. “Nos EUA temos o ADA (Americans with Disabilities Act), lei que proíbe todo e qualquer preconceito e discriminação. Pelo menos eu não precisei provar a minha deficiência auditiva. As empresas nem tem exame médico admissional. Não há cotas, todo deficiente concorre com os “normais”, no trabalho, escola e serviço público. O que vale é o currículo, e todo o processo de seleção é feito on-line, para evitar preconceitos. Aqui temos acessibilidade. Até quando eu estava procurando trabalho, a pessoa do RH falou que não precisava nem colocar no currículo, pois seria contra a lei citada acima. Só na hora da entrevista que deveria mencionar. A empresa/escola deve proporcionar a acessibilidade. Aqui, eles dão a faca e o queijo na sua mão, você que tem que pegar seu pedaço, estudar, se diferenciar. E eu sei que na Inglaterra é bem parecido também”.

Ricardo Miranda, presidente da OUVIR (Associação Portuguesa de Portadores de Próteses e Implantes Auditivos), também nos contou sobre é a questão dos empregos para as pessoas com deficiência de seu país. “Aqui em Portugal, não funciona por cotas. As empresas têm é medidas de incentivo à contratação de pessoas com deficiência, com atestado de incapacidade igual ou superior a 60%, em que as empresas têm benefícios fiscais por terem nos seus quadros pessoas com deficiência nas condições anteriores. As pessoas vão aos diferentes médicos que os acompanham para exames de avaliação das deficiências que têm (por exemplo, auditiva, por audiometria, ou outros), e depois de todos os exames efetuados, levam a uma junta médica no Centro de Saúde da sua região. Com base nesses exames e relatórios, os médicos da junta médica avaliam a incapacidade da pessoa. Para os cidadãos com menos de 60% de incapacidade, existem sempre incentivos. O que não acontece, nesses casos, é a empresa usufruir de benefícios fiscais”.

Legislação versus Realidade no Brasil

Sabemos que nem sempre os objetivos das leis são cumpridos integralmente na realidade. O que era para ser uma medida inclusiva e integradora da pessoa com deficiência acaba sendo tratada como mera obrigação jurídica pelas empresas. É o que mostra um estudo realizado em 2014 pelas empresas Catho e iSocial, com apoio da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos), em que 81% dos profissionais de RH entrevistados, de um total de 2.949 indivíduos, responderam que as empresas contratam pessoas com deficiência apenas para cumprir a Lei de Cotas. Desta mesma pesquisa, 49% dos profissionais também afirmaram que as empresas nas quais trabalham não possuem estrutura física ou recursos acessíveis para viabilizar a contratação de um trabalhador com deficiência.

Segundo dados da Secretaria do Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Censo IBGE 2010, 82% dos profissionais com deficiência (de um total de mais de 20 milhões de pessoas) são contratados sem carteira de trabalho assinada. Apenas 306 mil, de aproximadamente 44 milhões de vagas de emprego no Brasil, foram ocupadas por pessoas com deficiência em 2010. Ainda, de acordo com outros dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2010, no panorama de profissionais brasileiros, a diferença de rendimento entre mulheres e homens é maior entre pessoas com deficiência auditiva. Mulheres com essa deficiência chegam a ganhar 43% menos do que homens na mesma condição.

Em 2008, profissionais do Hospital de Reabilitação e Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), conhecido como Centrinho de Bauru/SP, realizaram uma pesquisa envolvendo 68 pacientes com deficiência auditiva, com idades entre 16 a 21 anos. Desse total, 46 pessoas estavam sem empregos e, dentre todos os entrevistados, 24 deles possuíam perda auditiva neurossensorial profunda bilateral. Quase todos os jovens (66 pessoas) relataram dificuldades na comunicação e com o preconceito no mercado de trabalho.

Janine Plaça Araujo e Andréia Schmidt apontam em seu artigo, de 2006, que as principais causas para a dificuldade das pessoas com deficiência em se conseguir um emprego são uma frequente falta de especialização ou baixa escolaridade, a falta de preparo das empresas com recursos acessíveis e o preconceito existente dentro da sociedade. Observa-se que, em grande parte dos casos, essa falta de especialização do trabalhador com deficiência, citada pela pesquisa acima, se deve à ausência de acessibilidade nos cursos de formação profissional. Na área da deficiência auditiva, ainda são em menor número as instituições educacionais que fornecem alternativas, como legendagem ou conteúdo em LIBRAS, ao material didático dos cursos. Estereótipos sociais, como a crença de que deficientes auditivos realizam melhor trabalhos braçais, pela sua grande capacidade de concentração, também limitam as oportunidades profissionais desse seguimento da população.

Depoimentos de pessoas com deficiência sobre o mercado de trabalho

Nós da ADAP ouvimos algumas pessoas com deficiência sobre suas experiências no mercado de trabalho. Os relatos mais recorrentes dizem respeito às situações de preconceitos vividas e observações sobre empregos conseguidos com e sem a Lei de Cotas. Veja a seguir os depoimentos.

Em relação às situações de discriminação, qualquer pessoa com deficiência pode acabar passando por isso em algum momento de sua vida. Indivíduos com deficiência física, por exemplo, por terem suas diferenças mais visíveis, podem sofrer o preconceito baseado em algum aspecto de sua aparência, como mostra o relato da recém-formada designer paranaense Marluci Scopel. Ela possui Distonia, um distúrbio neurológico que afeta os movimentos e a postura do corpo, e conta sobre uma situação que vivia em seu antigo trabalho. “Eu trabalhei em minha faculdade, CNEC, como auxiliar de biblioteca. Atendia as crianças durante a manhã e à tarde, e os adultos à noite. Eu trabalhei três anos lá, dez horas por dia, e mais um sábado por mês. O trabalho era pesado, vinham quatro turmas por tarde de uns 35 alunos para atender ao mesmo tempo. Algumas crianças eram bem cruéis, me mandavam atender mais rápido, ficavam falando “Olha, ela é toda torta” na minha frente, e me perseguiam, me olhando com ódio. Foi muito difícil. Eu acredito que as crianças, na medida em que vão crescendo e se enturmando com os coleguinhas, vão aprendendo a ter preconceito”, diz.

Já para os deficientes auditivos, a principal forma de preconceito que pode ser enfrentada é a exclusão dos círculos sociais do trabalho, feita propositalmente ou pelo simples desconhecimento dos demais em tentar adaptações na comunicação com um surdo, seja ele oralizado ou sinalizado. Aline Cordeiro, bilíngue e usuária de IC há oito anos, explica sobre as situações que já presenciou em ambientes corporativos. “Às vezes nos deixam saber por último sobre as coisas que acontecem ou vão acontecer no meio do trabalho, esquecem-se de nós, não acreditam na nossa capacidade, falam pelas nossas costas. Nós, deficientes, temos que fazer “barulho” para sermos respeitados. As pessoas não compreendem a surdez. Acham que todos ouvem um pouco”.

Sobre a questão das cotas, Vagner Santos Guarani Kaiowá, formado em Ciências Sociais pela UFRB, usuário de AASI e com perda auditiva severa/profunda, comenta o panorama na atualidade. “Creio que, nesses últimos 12 anos, as Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência avançaram muito. É complexa essa questão de cota no segundo plano, mas creio que ainda prevaleça o preconceito em empregar deficientes em atividades afim de “menor trabalho”, sendo que eles poderiam estar em um setor com mais responsabilidade, digamos assim. Para conseguir um emprego sem ser por cotas hoje, esse deficiente precisa ser muito bom: ter um currículo invejável (ensino superior, pós-graduação) e por aí vai, pois facilita a concorrência com um “normal”. Fora isso, são as cotas, que interessam à empresa para seu abatimento de impostos. É muito comum colocar a pessoa para realizar tal função sem a mínima estrutura, dependendo apenas da “boa vontade” dos seus colegas”.

Felizmente, nem todas as empresas agem dessa forma. Há aquelas que possuem responsabilidade social, o que facilita a inclusão. Élen Muzy, que tem surdez profunda e é usuária de IC há 15 anos, relata que nunca teve dificuldades na hora de se conseguir um trabalho. “Nessa parte eu tenho facilidade. Uma vez, consegui quatro ao mesmo tempo e fiquei doida, não sabia o que fazer. Trabalhei numa loja em que tinha eu e mais uma menina surda. Hoje essa loja cresceu, têm filiais e está precisando de cinco deficientes. Está até faltando candidatos”, diz.

Conseguindo um emprego

A função que a pessoa com deficiência exercerá no seu trabalho deverá valorizar suas aptidões e talentos naturais que não dependam da função ou sentido corporal atingido pela deficiência. A palavra-chave para todo o processo é adaptação, e isso deve ser esperado tanto da parte da empresa quanto do próprio candidato. Persistir, buscar soluções adaptativas, aprimorar seu currículo e seus conhecimentos na medida do possível são atitudes sempre válidas para ajudar a encontrar seu lugar dentro da concorrência do mercado capitalista.

Eu, por exemplo, tenho Distonia, assim como Marluci. Além disso, possuo uma perda auditiva moderada bilateral, e alterações na voz também devido ao distúrbio motor. Estudo jornalismo e faço estágio aqui na ADAP. Sei perfeitamente que, dentro da área da imprensa, não tenho como trabalhar como locutora de rádio ou apresentadora de TV. Mas sempre gostei de ler e escrever, e busco me aprimorar cada vez mais nas áreas do jornalismo impresso e digital. Por causa da deficiência auditiva e de voz, também é muito difícil conseguir atender ao telefone, então me adaptei fazendo o contato com associados ou entrevistados pelo meio virtual ou pessoalmente. E nisso a ADAP também me dá todo o suporte necessário para o exercício do meu trabalho.

Como as empresas, por sua vez, também devem exercer um papel de extrema importância para auxiliar nas tarefas profissionais da pessoa com deficiência, a terapeuta ocupacional Patrícia Witt dá algumas recomendações (na imagem abaixo, cedida por ela) para o sucesso na inclusão do trabalhador PCD no mundo corporativo.

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