Inclusão

Contratação de Pessoas com Deficiência

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Entrevista da i.Social com a deputada federal Mara Gabrilli

Com o objetivo de traçar um diagnóstico sobre a empregabilidade das pessoas com deficiência no mercado de trabalho estamos entrevistando os principais players do mercado para colher suas opiniões acerca dos desafios atuais que devem ser enfrentados e sugestões de soluções para o avanço desta empregabilidade.

A seguir a entrevista que a i.Social realizou com a deputada federal Mara Gabrilli.

Mara Gabrilli, 46 anos, é publicitária, psicóloga e, atualmente, deputada federal por São Paulo. Há 19 anos, sofreu um acidente de carro que a deixou tetraplégica. Passou cinco meses internada – dentre os quais dois em respirador artificial – e recebeu uma nova condição para a vida: a impossibilidade de se mexer do pescoço para baixo. A partir daí, não parou mais de se mexer. Após um longo período de reabilitação, fundou em 1997 o Instituto Mara Gabrilli, ONG que apoia atletas com deficiência, promove o Desenho Universal e fomenta pesquisas científicas e projetos sociais. Antes de se tornar deputada, foi secretária da Pessoa com Deficiência da Prefeitura de São Paulo e vereadora na Câmara Municipal de São Paulo. Em dezembro de 2011 foi avaliada pela Revista Veja como o terceiro melhor parlamentar do ano, entre os 513 da Câmara dos Deputados, sendo a primeira colocada entre as mulheres e entre os parlamentares de São Paulo.

i.Social: Desde que a RAIS começou a coletar dados sobre a quantidade de trabalhadores com deficiência no mercado formal de trabalho temos visto, conforme a tabela abaixo, que o número de contratações têm sofrido pouca variação, patinando na casa dos 300 mil profissionais com deficiência empregados. Estudos apontam que o número total de vagas geradas pela Lei de Cotas varia em torno de 800 mil a 1 milhão de vagas no Brasil todo. Por que não estamos conseguindo evoluir mais significativamente este cenário?

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Mara Gabrilli: Infelizmente o Brasil ainda desperdiça o enorme potencial que possui de aprender com a diversidade. Dados como esses, apontados pela RAIS, dificilmente vão estampar as capas dos cadernos de economia e os noticiários de TV. Ainda existe pouco entendimento sobre a relevância dessa pauta e o impacto para economia do país. Para evoluir nesse cenário isso precisa mudar. Outro ponto é que hoje as oportunidades ainda estão concentradas nos mesmos cargos e funções. Além disso, o foco na contratação continua sendo a deficiência, quando deveria ser a potencialidade da pessoa. Não podemos desprezar o fato de que a estagnação é uma fase no ciclo de qualquer processo, porém ainda é muito cedo para isso.

i.Social: Em sua opinião quais são os principais obstáculos para a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho?

Mara Gabrilli: Ao pensar nos obstáculos vale a pena propor a seguinte reflexão: A pessoa com deficiência tem a possibilidade de optar pelo que deseja fazer? Ou será que ainda deve aproveitar apenas as atividades que lhe são oferecidas? O leque atual de oportunidades ainda é muito restrito, uma pessoa com deficiência que tenha nível superior, por exemplo, tem grande dificuldade de conseguir uma colocação na sua área de formação. Compreendemos os desafios das organizações em promover a inclusão profissional de pessoas com deficiência, e, sem diminuir os bem intencionados esforços promovidos, o maior obstáculo ainda está na falta de informação. São os conceitos pré-estabelecidos e, em alguns casos, o descrédito e desinteresse que compõem os maiores entraves para inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

i.Social: O que poderia ser feito para impulsionar a contratação de pessoas com deficiência?

Mara Gabrilli: O primeiro passo é ampliar a massa crítica disposta a entender sobre o assunto e participar na busca de soluções e alternativas para esse impulsionamento. A informação e o conhecimento tem que ser compartilhado e disseminado para ganhar uma cobertura maior. Para isso é preciso encontrar parceiros, de todos os setores, interessados em ingressar na luta para desconstruir essa visão, assistencialista e preconceituosa, de que o trabalhador com deficiência é pouco representativo para a economia nacional. Também temos que fiscalizar e lutar pela manutenção de instrumentos que foram e são importantes para as atuais conquistas, como é o caso da lei de cotas. E mais que isso, temos que buscar caminhos complementares para melhorar a qualidade da inclusão das pessoas com deficiência, para aqueles que ainda estão fora do mercado. As soluções devem ampliar o leque não apenas nas empresas com mais de cem funcionários, mas em todos os setores, inclusive no governo. Com um maior envolvimento, as estratégias se tornam mais consistentes e coerentes com as necessidades e realidade do país.

i.Social: Qual é a sua avaliação final sobre o cenário atual acerca da inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho?

Mara Gabrilli: Apesar da recente estagnação, em 10 anos tivemos um enorme crescimento no número de contratações, e tivemos melhoras também em dimensões como educação inclusiva, infraestrutura urbana, acessibilidade em transporte e edificações, mas sabemos que as coisas não mudam do dia para noite e, apesar dos avanços, o cenário atual ainda está distante do ideal. Sabemos que temos muito trabalho pela frente, principalmente em dois pontos fundamentais: na qualidade da inclusão daqueles que já estão no mercado, mas ainda não possuem condições adequadas para o trabalho; e para aquele grupo que ainda não encontrou oportunidade de trabalho, e precisa de um suporte maior para se estabelecer. A equiparação de oportunidades só será realmente verdadeira se possibilitar autonomia, independência e autodeterminação nas escolhas, como forma de garantir a gerência da própria vida.

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