RH Inclusivo

“Cotas e inclusão têm significados muito diferentes”: entrevista com o profissional de RH Túlio Mendhes

Conversamos com o Túlio Mendhes, que é profissional de RH e escreve para o blog Mão na Roda, do G1. Em seus textos, Túlio aborda temas como inclusão e acessibilidade, além de relatar suas experiências vividas como pessoa com deficiência, mas também como um ser humano comum que é profissional, estudante, namorado e jovem.

Nesta entrevista para o blog da i.Social, ele fala sobre o mercado de trabalho para pessoas com deficiência a partir de sua experiência como profissional de RH. Acompanhe:

i.Social: Como profissional de RH, o que você acha da Lei de Cotas? Há quem diga que a cota atrapalha a empregabilidade das pessoas com deficiência, mas, por outro lado, se ela não existisse, provavelmente o cenário seria bem mais excludente. O que você pensa sobre isso?

Inicio essa resposta com a seguinte afirmação: Cotas são necessárias, mas não são inclusivas. Explico. Quando falamos no “casamento” entre o mercado de trabalho e os profissionais com deficiência, temos uma mania errônea de categorizar, mensurar essa relação apenas sobre o aumento nas contratações de pessoas com deficiência. Afinal, a lei que determina a porcentagem de contratações para PCDs, completou 26 anos em 2017 e, segundo o Ministério do Trabalho, houve um aumento de 20% nessa categoria de contratação nos últimos cinco anos.

Ok… até aqui não há o que discutir, afinal é inegável que, em um país em que subsistem profundas desigualdades, é essencial que a União promova processos de inclusão. Infelizmente (ou não), o Estado tem a obrigação de criar oportunidades para aqueles que, por diferentes motivos, não conseguem se aproximar do ideal de igualdade preconizado pela Constituição em seu art. 5º.

Contudo, como profissional de RH e baseando-me em dados do IBGE, afirmo que, de 45 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência, apenas cerca de 381 mil vínculos formalmente são ocupados de acordo com a legislação para essa categoria “cotista”. O problema nesse número eu conceituo como “estoque corporativo”. Por quê? Simples, as contratações de pessoas com deficiência são interpretadas por gestores como uma “obrigação cotista”, ou seja, contratam e colocam o profissional deficiente num cargo de base, sem perspectivas de plano de carreira, abdicam desse empregado responsabilidades cobradas aos demais membros da equipe.

Em outra vertente, a pessoa com deficiência se acomoda nessa zona de conforto, não se qualificando, não se reciclando para o mercado de trabalho. São poucos os profissionais com deficiência que matam um leão, digo, uma selva inteira por dia para serem tratados como parte do TODO.

Questões que envolvem acessibilidade e inclusão, muitas vezes, são pouco discutidas dentro da organização. Encerro com a afirmativa: “Cotas e inclusão têm significados diferentes, muito diferentes”.

(Reprodução: Blog Mão na Roda)

i.Social: A empresa onde você trabalha precisa cumprir a cota de pessoas com deficiência? Ela tem um programa de inclusão para isso?

Trabalho numa empresa com um ambiente altamente complexo, diversificado culturalmente e em constante mudança regulatória. Todo o nosso quadro corporativo precisa ter conhecimentos e vivência sobre uma variedade de soluções no mapeamento e execução operacional de processos de negócios. É notório que nosso quadro de pessoal é composto por profissionais bem qualificados, isso é um fato.

Temos sim um programa para contratações de pessoas com deficiência, programa este em que fui admitido quatro anos atrás. Contudo, infelizmente tanto os quadros do staff, quanto o da diretoria passam por uma “escassez” de mão de obra de profissionais com deficiência. O motivo? Falta de qualificação dessa categoria. Isso também é um fato.

i.Social: Em uma pesquisa que a i.Social realizou com profissionais de RH, percebemos que uma estratégia que as empresas consideram positivas para a inclusão é a de não determinar vagas exclusivas para PCDs, mas sim permitir que candidatos com e sem eficiência possam competir livremente. Na sua visão, há mais prós ou contras nesta situação?

Honestamente, responderei essa questão exclusivamente como profissional de RH, entenda. Ao contratar pessoas com deficiência, acredito que aprimoro o processo seletivo do meu departamento. O motivo? Faço com que a minha equipe se adapte para lidar com a admissão da PCD.

A questão não é observar a pessoa a partir de suas dificuldades, mas sim, entender que o candidato PCD deve ser selecionado como os outros, a partir de suas habilidades e adequação ao perfil ideal da vaga. Isso envolve muitas vezes a superação de ideias preconcebidas e paternalistas.

Esse aprendizado para o RH é fundamental, proporciona crescimento profissional e mais eficiência no processo de recrutamento e seleção da empresa.

i.Social: Em um texto do blog Mão na Roda você fala sobre uma experiência de ir a uma entrevista de emprego e a empresa não possuir nenhum tipo de acessibilidade para recebê-lo. O que é possível fazer em uma situação como essa, dentro dos termos da lei, por exemplo?

O fato que fiz questão de contar, no aspecto profissional foi uma dos momentos mais “cruéis” que enfrentei. Tendo aproximadamente 10 candidatos concorrentes ao meu lado que presenciaram o desrespeito, mas cuidaram de seus próprios interesses, me deixando no pé da escada da sala de recrutamento. Em seguida, o despreparo dos profissionais do capital humano daquela empresa. Enfim, foi muito complicado.

Agora sobre o que fazer quando o profissional com deficiência tem todas as qualificações exigidas no processo, mas a empresa não tem acessibilidade para recebê-lo? Pois bem… Para isso é preciso ter conhecimento da Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, que institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Nesse estatuto encontramos todas as garantias que a lei nos oferece no que tange a inclusão e a acessibilidade, inclusive sobre o exemplo da pergunta.

(Fonte: LEI Nº 13.146, DE 6 DE JULHO DE 2015)

Pela primeira vez, uma legislação no mundo prevê que nós, pessoas com deficiência, podemos escolher onde queremos trabalhar.

As pessoas jurídicas de direito público, privado ou de qualquer natureza são obrigadas a garantir ambientes de trabalho acessíveis e inclusivos, ou seja, não há limitação de tamanho ou natureza. As edificações públicas e privadas de uso coletivo devem nos garantir acessibilidade em todas as suas dependências e serviços, tendo como referência as normas de acessibilidade vigentes.

Leia também: Os avanços da Lei Brasileira de Inclusão (LBI)

Caso haja seu descumprimento, a atitude é considerada discriminação em forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, e que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais da pessoa com deficiência, incluindo a recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas. Mesmo uma suspeita discriminação, até por omissão, terá como consequência dano moral, multas, até prisão.

i.Social: Por fim, com toda a sua experiência (pessoal e profissional), o que você acha que pode ser feito para melhorar o cenário da inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho?

Sendo sucinto, acredito que devemos combater a hipocrisia e demagogia tanto dos empregadores quanto das pessoas com deficiência. Como fazer isso? Promovendo ações de conscientização da Lei 13.146, especificamente do capítulo VI que trata do nosso direito ao trabalho.

Essas ações, além de informarem ambos os lados, devem evidenciar a importância do relacionamento entre o mercado de trabalho e as pessoas com deficiência.

Consequentemente outros fatores como capacitações para os gestores de departamentos, gestores de áreas, recrutadores etc. e o investimento em metodologias de inclusão que amparem os profissionais de Capital Humano, evidenciaram e muito a evolução no cenário da inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

Confira o blog Mão na Roda, no G1, clicando aqui!

A i.Social é uma consultoria com foco na inclusão social e econômica de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Acesse nosso site ou entre contato conosco para conhecer nossos serviços, vagas e treinamentos: i.Social – Soluções em Inclusão Social

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