Inclusão

Diversidade no Ambiente de Trabalho

Por Andrea Schwarz

Já faz um tempo que venho comparando a inclusão das pessoas com deficiência no mundo corporativo com a revolução feminista iniciada na década de 60, que desencadeou, entre outras questões, a entrada das mulheres no mercado de trabalho.

Dia destes, lendo uma entrevista da vice-presidente sênior global da Unilever, Aline Santos, na revista Isto É Dinheiro, comprovei minha tese, identificando em suas declarações as mesmas situações por que passam hoje pessoas com deficiência e que passaram antes as mulheres nas empresas.

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Abaixo destaco alguns trechos da entrevista da executiva Aline Santos que me chamaram a atenção:

Rotina diária

“O homem mata um leão por dia. A mulher mata, tempera, assa, serve e depois ainda lava a louça”.

A rotina da pessoa com deficiência também é mais difícil e pesada, se considerarmos que temos dificuldades maiores para realizarmos as atividades da vida diária. Isto nos torna mais forte!

Carreira e Independência

“Os primeiros passos em direção à independência foram dados sem referências, na base da tentativa e erro, com a mulher tendo de provar, a todo o instante, o seu valor.”

Sinto muito isso em relação ao processo de inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Tentativa e erro! Sem referências anteriores. Vejo muitos problemas em relação à postura de líderes, de gestores que não sabem como gerenciar profissionais com deficiência, como também das próprias pessoas que estão entrando no mercado de trabalho.

Assim como a mulher, as pessoas com deficiência estão constantemente tendo que provar seu valor.

Super-humanos

“Quando ingressei no mercado de trabalho, na década de 80, eu tinha de ser perfeita em tudo que eu fazia: no trabalho e como mãe, uma verdadeira supermulher.”

A pessoa que possui uma deficiência e que trabalha, muitas vezes, é considerada como um super-herói. Esta supervalorização da pessoa, assim como a subvalorização é preconceituosa. O rótulo, a necessidade de seguir um modelo pré-estabelecido pela sociedade é discriminatório. Independente de qualquer condição é possível se sobressair na carreira e na vida, desde que a sociedade ofereça condições de igualdade para todos.

Revolução Tecnológica

“Graças a diversas ferramentas tecnológicas eu posso gerenciar, no mundo inteiro, um negócio que movimenta mais de 3,5 bilhões de euros. A revolução tecnológica ajudou a libertar a mulher.”

A tecnologia certamente auxilia todas as pessoas, inclusive as pessoas com deficiência com recursos que podem, muitas vezes, suplantar alguma limitação.

Jornada Flexível

“…existe uma mentalidade dentro da empresa de aceitar o trabalho com jornada flexível, o que dá plenas condições para que os funcionários tenham a possibilidade de cumprir agendas pessoais, podendo concluir o trabalho em seu período de folga.”

O importante neste exemplo é que a empresa entendeu as necessidades específicas das mulheres e se adequou a ponto de propiciar um ambiente igualitário para todos. No caso das pessoas com deficiência é essencial entender quais são suas necessidades específicas e também adequar o ambiente para comportá-las. Flexibilidade de algumas funções, por exemplo seria uma grande conquista.

Políticas de Diversidade e Cultura

“Para ser bem-sucedida, uma empresa precisa dos melhores recursos humanos e é para isso que serve a inclusão. No entanto, esses recursos precisam de adubo para seu crescimento. Não adianta apenas atrair 50% de mulheres e não fazer nada para ajudá-las a crescer. Há muitas coisas que se resolvem com políticas de incentivo, mas outras se resolvem apenas com a mudança de cultura. E isso leva tempo e necessita de uma liderança forte e convicta de que essa estratégia vai trazer resultados.”

Essa declaração é perfeita! Traduz, quase que exatamente, a realidade e necessidades atuais do processo de inclusão de pessoas com deficiência. A cota em si não faz sentido, se não houver políticas e instrumentos de apoio e incentivo à evolução dentro da empresa. Para isso é necessário um trabalho constante de longo prazo na cultura empresarial e este trabalho deve ser patrocinado pela alta liderança da empresa.

Acessibilidade

“Um detalhe curioso é que não existia banheiro feminino no andar da diretoria (final da década de 90 quando foi promovida). Aí o chefe colocou uma placa Banheiro Aline Santos, achando que somente eu usaria o espaço. Não viam as oito secretárias passarem anos tendo de caminhar até outro andar para usar o banheiro.”

Chega a ser engraçado este relato. Será que daqui a alguns anos também vamos ter esta mesma percepção quando uma empresa não tiver um sanitário acessível? Ou não tiver uma rampa na entrada? Acessibilidade? Tomara que sim, que seja inacreditável uma situação como essa!

Certamente que a inclusão das mulheres no mercado de trabalho ainda apresenta diversos desafios, mas vemos que as barreiras enfrentadas se assemelham ao que as pessoas com deficiência estão vivenciando atualmente, com uma diferença de 40 anos.

Nesta perspectiva assumo uma visão otimista, imaginando um futuro promissor para as pessoas com deficiência no mercado de trabalho, assim como vemos hoje a situação das mulheres.

De fato, trata-se de um processo de mudança cultural. E esse tipo de mudança só ocorre a longo prazo. O caminho é longo, mas estamos no rumo certo!

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Uma Reposta para “Diversidade no Ambiente de Trabalho”

  1. On 12 de outubro de 2015 at 13:11 Alcindo respondeu com... #

    Prezada Andrea
    Obrigado pelo texto e pela entrevista apresentada.
    Gostaria de saber sobre a relevância da diversidade social no mercado de trabalho como linguística, cultura, costumes.

    Pode me ajudar?

    Grato

    Alcindo

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