Inclusão

Empreendedorismo para Pessoas com Deficiência

Empreendedorismo para Pessoas com Deficiência

Introdução do livro “Empreendedorismo Sem Fronteiras – Um excelente caminho para pessoas com deficiência” de Cid Torquato e Fernando Dolabela

Por Andrea Schwarz

Costumo dizer que minha trajetória de empreendedorismo é obra do destino.

Nunca pensei em empreender, não corri atrás de um sonho, como costumam dizer, assim como não previ que aos 22 anos me tornaria uma cadeirante.

Na época, era muito jovem. Minha vida profissional estava começando e tinha todas as possibilidades pela frente. Estava no último semestre de fonoaudiologia e já pensava em fazer uma especialização, caminho natural para quem almejava o atendimento clínico.

Volto a 1998, junto ao meu namorado, hoje marido e pai de meus dois filhos, Jaques Haber. Estávamos na praia quando, durante a noite, fui me levantar da cama e simplesmente caí. Isso, caí! Minhas pernas não sustentavam mais meu corpo.

Black Out!

O que aconteceu? Há duas horas, quando fui deitar, estava tudo normal…

Um mês depois, ainda no hospital, descobriram que eu tinha uma espécie de má-formação congênita na medula espinhal e que, resumindo, para focar no que interessa aqui, na minha história de empreendedorismo, me deixou com a sequela de paraplegia.

Eu continuava sendo a mesma pessoa. Mas parecia que tudo estava diferente!

Passada toda a fase de adaptação, lembro-me que quando comecei a sair de casa com o Jaques passávamos por situações difíceis por falta de acessibilidade, de informação e de conhecimento das minhas próprias limitações.

Em uma ocasião, na festa de um colega de trabalho da agência de publicidade que o Jaques trabalhava, fomos até uma danceteria e nos deparamos com um lance gigante de escadas. Quase desistimos, mas não, fomos em frente, insistimos, pedimos ajuda. Danceteria lotada e cadeira de rodas não combinam, não havia sanitário acessível, todos se sentiram desconfortáveis com aquela situação.

Saímos de lá cansados e frustrados.

Mas, entre outras situações como essa, tivemos uma ideia!

Por que não escrever um guia da cidade de São Paulo com informações sobre acessibilidade para pessoas com deficiência?

Queríamos tentar diminuir os sufocos que os cadeirantes passavam pela cidade, assim como conscientizarmos estabelecimentos e pessoas sobre as necessidades de uma pessoa com dificuldade de locomoção. Afinal, o que era acessibilidade? Uma rampa na porta? E a circulação do local, o sanitário acessível, a vaga de estacionamento, o atendimento preferencial? E a atitude dos atendentes?

Em um golpe de sorte conseguimos um patrocínio para ir em frente com este projeto que se chamaria Guia São Paulo Adaptada e que foi lançado no começo do ano 2000, apenas pouco mais de um ano após ter me tornado cadeirante.

Era o início da nossa história de empreendedorismo. Eu e o Jaques, meio que sem querer, puxados pelo destino e pela necessidade de nossa vivência recente, formatamos uma ideia, captamos recursos e pegamos nosso carro, papel, caneta e um computador para executar nosso primeiro projeto.

A realização que sentimos foi enorme. Se não tínhamos o sonho de empreender encontramos um sonho para viver! Trabalhar por um mundo mais inclusivo, pensado para todos!

Era o ingrediente que faltava para nos transformarmos e nos definirmos como empreendedores sociais. Só conseguíamos pensar: Qual é o próximo projeto?

E, junto com esta pergunta vinham outras: Qual o objetivo? Como fazer? Quais recursos necessários? Como obtê-los? Quanto tempo? Quem contratar? Como medir? Qual o impacto que queremos causar?

Dezenas de dúvidas para as quais não tínhamos resposta.

O processo de descoberta, de tentativa e erro, os desafios, os obstáculos eram nosso combustível. A deficiência já era coadjuvante.

Mas era tudo muito difícil! Batíamos na porta das empresas, cheios de ideias, precisando de patrocínio, mas nossas propostas eram gentilmente recusadas. As empresas não queriam investir em projetos para pessoas com deficiência. Além disso, não tínhamos dinheiro, nem investimento, nem escritório, nem funcionários. Trabalhávamos de nossas casas e estávamos começando a entender o que significava ter uma empresa, contador, emissão de nota, impostos e toda a burocracia necessária para empreender.

Por diversos momentos pensamos em desistir, em voltar para o mercado de trabalho. Mas acho que só não desistimos simplesmente porque não conseguimos desistir. Estava em nosso DNA continuar, persistir, tentar, acreditar!

Hoje, pensando em retrospectiva, vejo que o fato de encontrarmos nossa missão de vida, aliada à persistência e ao nosso perfil desbravador foi a fórmula de sucesso para a minha história de empreendedorismo, traduzida por meio da i.Social, consultoria especializada na empregabilidade de pessoas com deficiência.

Nos primeiros anos de atuação definimos que o nosso foco de atuação seria na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, motivados pela Lei de Cotas. Se as empresas não se empolgavam muito em investir em projetos voltados ao público com deficiência, por outro eram obrigadas a inclui-las dentro de seu quadro de colaboradores, e percebemos que este seria o melhor caminho para seguirmos na busca de um mundo mais inclusivo, pensado para todos.

Ao longo de nossa trajetória e, por meio da i.Social, já incluímos mais de 10.000 pessoas com deficiência no mercado de trabalho e já desenvolvemos cerca de 500 Programas de Inclusão, atuando em áreas como acessibilidade, palestras de conscientização, treinamento, elaboração de cartilhas, pesquisas, programas de carreira, retenção e consultoria sobre assuntos relacionados, além do próprio trabalho de recrutamento e seleção.

Escrevemos, depois da primeira publicação, mais dois livros. O Guia Brasil Para Todos, um roteiro turístico e cultural de 10 capitais brasileiras para pessoas com deficiência e, mais recentemente, o livro COTAS – como vencer os desafios da contratação de pessoas com deficiência, que traz a nossa visão e metodologia de trabalho sobre o tema.

Atualmente estamos nos dedicando a um novo empreendimento que alia tecnologia e o nosso conhecimento a favor da inclusão. Trata-se do site de recrutamento online Vagas Inclusivas que conta com o banco de currículos da i.Social, extremamente qualificado e que busca aproximar as empresas inclusivas dos profissionais com deficiência.

Hoje a i.Social possui escritório, contrata funcionários, paga impostos e me permite viver com autonomia, por meio do meu trabalho, do meu conhecimento e do que produzo, o que me faz com que eu me sinta uma pessoa completa e realizada, tanto como profissional, como no campo pessoal, onde junto com o Jaques tivemos dois filhos e formamos uma família.

Por isso parabenizo e festejo esta brilhante iniciativa do Cid Torquato e Fernando Dolabela, trazendo à tona o tema Empreendedorismo e Deficiência, pois vejo sim uma grande oportunidade de inclusão por meio deste caminho.

Empreendedorismo para Pessoas com Deficiência

Desejo que este livro inicie e aprofunde esta discussão para que possam ser criadas políticas públicas de incentivo para que pessoas com deficiência possam se aventurar a empreender, uma tarefa complexa no Brasil, independente de possuir uma deficiência e que cada vez mais histórias como a minha possam acontecer, não apenas por obra do destino, mas também por caminhos menos tortuosos, com acesso a informação e planejamento.

Empreendedorismo para Pessoas com Deficiência 2

Andrea Schwarz
Fundadora e sócia da consultoria i.Social
Inclusão social de pessoas com deficiência no mercado de trabalho

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