Inclusão

Inclusão é uma Construção Coletiva

inclusao_social

Texto extraído de: Comunicação Essencial, o Blog de Sueli Yngaunis, por Sueli Yngaunis

Quem estuda ou trabalha com inclusão, vive cotidianamente com o desafio de aprender fazendo. Lida com inúmeros personagens, todos eles com suas dificuldades legítimas e tentando assimilar, ou melhor, construir um novo paradigma.
Inclusão não é um processo decorrente apenas de informações de como fazer ou de como as coisas deveriam ser. Principalmente no que se refere à inclusão de pessoas com deficiência. O que me preocupa é a ausência de diálogo entre alguns do envolvidos, criando grupos que se isolam dentro de suas verdades, e que tem dificuldades em compreender e ouvir a outra parte. Inclusão, como diz Sassaki, deve ser bilateral.

A ausência, por séculos, de pessoas com deficiência na vida em sociedade, ou seja, nas ruas, nas empresas, nos entretenimentos, contribuiu para que o desconhecimento de como se comportar e se relacionar com elas. E o desconhecimento é a principal fonte do preconceito.

Os movimentos sociais, dispositivos legais e o aumento do número de pessoas com deficiência circulando na sociedade têm colocado novos desafios para todos. Assim como as pessoas com deficiência tiveram que aprender a viver em uma sociedade não inclusiva e superar as barreiras que impunham limitações, e lhes negavam o direito e acesso aos bens e recursos a que todos tem direito, agora é esta mesma sociedade que está sendo convidada a rever seus conceitos e suas práticas, de modo a evitar a manutenção dessas barreiras.

Veja que acabamos de ser incoerentes, como se houvesse dois grupos distintos, como se as pessoas com deficiência não pertencessem à sociedade. É comum encontrar discursos sobre dois grupos, de um lado as pessoas com deficiência e do outro a sociedade, e alguns discursos localizam esses dois grupos em partes antagônicas. E essa situação é compreensível, se levarmos em conta, as barreiras históricas que fizeram, e infelizmente ainda faz parte da vida das pessoas com deficiência.

No entanto, penso que enquanto essas partes estiverem separadas as coisas não mudarão. Registros têm mostrado que o diálogo entre as pessoas com deficiência e as pessoas que não tem deficiência, tem contribuído para ao aprendizado de todos. O Modelo Social da Deficiência, que nasceu nos anos 1970 na Inglaterra, tem defendido a tese de que são as próprias pessoas com deficiência é que podem falar em nome delas mesmas. Não somente os especialistas, que possuem uma visão médica sobre a deficiência. E que não são as deficiências das pessoas que as limitam, mas sim as barreiras físicas, de comunicação e atitudinais resultante da ausência de acessibilidade.

E a desconstrução desses paradigmas pressupõe a aproximação de todos os envolvidos. A Declaração de Salamanca, assinada em 1994 na Espanha, trouxe essa discussão para a área de Educação. Desde então, instituições de ensino do mundo inteiro, estão desenvolvendo políticas e programas de inclusão de pessoas com deficiência. E são inúmeras as experiências que têm sido registradas. E os principais personagens no ambiente educacional são os alunos e os professores, que precisam revisitar suas práticas e atitudes. As instituições de ensino devem estar atentas a essas interações, e criar suporte para que elas ocorram de maneira satisfatória para todos.

Assim, como no Brasil, a lei 8231/91, cujo artigo 93 fala sobre as cotas de contratação de pessoas com deficiência pelas empresas com mais de cem funcionários, também trouxe os desafios da inclusão para dentro do ambiente organizacional. Gestores, áreas de Recursos Humanos e os funcionários das empresas estão sendo convidados a repensar suas práticas e atitudes. Precisam aprender a gerenciar a diversidade.

Documentos podem até determinar ou impor mudanças. Mas a verdadeira mudança acontece no ambiente mais próximo, na relação um a um, quando os interlocutores vão aprendendo juntos, tentam desconstruir conceitos e práticas que não cabem mais em um mundo inclusivo, e construir um novo jeito de se relacionar e conviver juntos.

Por isso, não podemos esquecer as pessoas envolvidas, não adianta coloca-las em partes contrárias. Mudanças somente serão possíveis no diálogo, na troca de experiências, no ensinar o outro que não vive no mesmo contexto. Um ouvinte não compreende o mundo como uma pessoa surda compreende. Quem enxerga não percebe o mundo como uma pessoa cega percebe. E por aí vai.

Não estou dizendo que atitudes pouco louváveis não existam, mas sim, que existem pessoas que não tem deficiência fazendo um “esforço danado” para aprender e tentar mudar as coisas, isso têm. Mas este aprendizado levará tempo, e quando maior boa vontade de todos a inclusão será efetiva, porque pressupõe o esforço de todos em um diálogo permanente.

Tags: , , , , , , , , , , , ,

Não GosteiGostei (+1 rating, 1Votos)
Loading...

i.social

Sem comentários ainda.

Adicione sua resposta