Carreira

Professores com deficiência mostram que qualificação profissional está além de preconceitos ou ‘cotas’

Professores com deficiência derrubam o mito de que deficientes são menos qualificados, mas apontam falta de oportunidades para lecionar em sala de aula

“No início da carreira, eu mandava currículo para as instituições sem identificar que era PCD, era chamado para as entrevistas e, quando chegava lá, as pessoas diziam que eu não me encaixava, mas que poderia trabalhar na secretaria acadêmica.” O relato do docente Eduardo Pereira, que é professor há 20 anos, mostra como é a busca por trabalho em sala em aula para quem é educador com deficiência no Brasil.

“Outras [instituições] diziam que eu deveria ter mestrado e doutorado, daí olhando o lattes dos professores sem deficiência de determinadas universidades, percebia que muitos tinham apenas especialização”, afirma Eduardo, que é pedagogo e, desde 2014, professor de letras/linguística em uma universidade em Porto Alegre. Na época, a universidade reconheceu suas qualificações, independentemente da deficiência, e prontamente o contratou.

Eduardo Pereira após palestra que proferiu na FAPA-Uniritter sobre a Lei 13.146 – Estatuto da Pessoa com Deficiência (Foto: Arquivo Pessoal)

DIVERSIDADE DOCENTE AINDA É UM DESAFIO

No Brasil, ainda é baixo o índice de oportunidades para os docentes com deficiência. “Toda semana recebemos diversas novas vagas para pessoas com deficiência em nossa consultoria, mas o número de oportunidades para professores é baixíssimo, por mais que nosso banco de currículos tenha candidatos qualificados para preenchê-las”, afirma Renata Casimiro, diretora de recursos humanos da i.Social.

Questionada se as empresas ainda têm a percepção de que as PCDs são menos qualificadas para exercer um cargo de ensino, Renata responde que sim. “Infelizmente, essa ainda é uma realidade. Eu costumo dizer que não existe nenhuma área que a pessoa com deficiência não possa trabalhar, mas muitas empresas ainda preferem destinar cargos com poucos ou quase nenhum desafio profissional”, complementa.

A inclusão no ambiente escolar passou a ser cada vez mais discutida, especialmente no que diz respeito à integração de crianças e adolescentes com necessidades educacionais especiais (NEE) em sala de aula. Grande parte disso se dá pelos direitos à educação, garantidos pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI), em vigor desde janeiro de 2016, que proíbe que instituições de ensino se recusem a matricular alunos com deficiência ou cobrem mais caro na mensalidade.

O acesso à educação é um direito garantido pela Lei nº 13.146 – Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência)

Entretanto, se a inclusão de alunos já é uma realidade, a inclusão e a diversidade de professores PCDs em salas de aula ainda é um desafio. Em 2017, Eduardo Pereira escreveu o artigo acadêmico “Gestão da Acessibilidade e Inclusão: A Educação Inclusiva Sob a Óptica de um Professor PCD”, que será lançado como livro em março deste ano. Dentre os aspectos abordados, está a percepção de que os educadores da rede de ensino, apesar de terem formação pedagógica, podem não operar diretamente em sala de aula ou, então, exercerem outra função dentro das escolas.

No ensino público, isso acontece pelo fato de que, quando um docente é aprovado no concurso público, ele ainda precisa de um laudo médico que o considere apto ou não para exercer a função – e, nessa etapa, muitos acabam impedidos de atuar ou são encaminhados para áreas administrativas.¹

Já no ensino privado, o impedimento se dá por outras razões, segundo Eduardo. “O que ocorre é que muitas instituições privadas, que atendem a elite, não querem professores com deficiência como ‘cartão de visita’. Imagina você entrando em uma sala de aula e um cadeirante ou muletante dizendo que é o professor…”, finaliza.

BOAS PRÁTICAS DE INCLUSÃO DE PROFESSORES COM DEFICIÊNCIA

Claro que nem todas as instituições de ensino partem da premissa de que os educadores com deficiência são menos qualificados ou não podem atender as especificidades para lecionar. Um bom exemplo de diversidade docente é o modelo de inclusão adotado pelo Senac São Paulo, que conta com 470 colaboradores com deficiência, 5% de seu quadro total de funcionários, sendo que 92 deles são docentes.

O professor Bruno Alves é formado em rádio e TV, mas leciona na instituição desde 2012. “Ser docente foi um acaso, mas eu costumo dizer que foi o acaso mais lindo da minha vida”, brinca. Bruno tem deficiência visual e participou do processo seletivo do Senac inicialmente para trabalhar na sua área de formação, mas, devido à sua boa capacidade de comunicação, foi convidado a lecionar no programa “Aprendizagem” para adolescentes e jovens aprendizes.

“Eu sou privilegiado por trabalhar em uma empresa que acredita no meu talento. Quando eu entrei pela primeira vez numa sala de aula, eu não tinha ‘fórmula’ ou experiência alguma, então foi uma tentativa e erro”, comenta Bruno, acrescentando que a liberdade dada ao profissional para errar e acertar, até encontrar seu caminho e passar a desenvolver um ótimo trabalho, é o que torna uma empresa inclusiva. “Todos nós deficientes somos cientes da nossa capacidade e eu acredito que a maioria tem a disposição de aprender e a boa vontade de fazer dar certo”, complementa.

Formado em Rádio e TV, Bruno Alves leciona no Senac São Paulo desde 2012 (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2017, o Senac São Paulo ficou em terceiro lugar no IV Prêmio Melhores Empresas para Trabalhadores com Deficiência, realizado pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo. A empresa também esteve entre as três primeiras posições nas edições de 2016 e 2015 do prêmio.

Mario Valle, coordenador do Programa de Inclusão de Pessoas com Deficiência da instituição, afirma que a cultura inclusiva sempre esteve dentro da política da empresa. “O Senac São Paulo sempre esteve atento às questões relativas à inclusão. Nosso Programa foi formalmente constituído em 2002 e se deu em função da necessidade de estruturar ações que criassem uma cultura de respeito à diversidade em todos os níveis da organização”, comenta.

Quando o docente Paulo Cesar Venancio entrou para o quadro de professores da instituição, em 2011, o Programa de Inclusão já estava bem estruturado, o que lhe permitiu ter a acessibilidade necessária para ministrar suas aulas. “Eu preciso de uma sala em formato de ‘U’, então sempre converso com a equipe de estrutura para que eles deixem o espaço adaptado, de forma que eu possa transitar e atender melhor os alunos”, afirma o educador, que também dá aulas no Programa Aprendizagem.

Paulo Venancio é docente do Senac São Paulo desde 2011 (Foto: Arquivo Pessoal)

Paulo conta que participou de todas as etapas do processo seletivo para o cargo, inclusive fez dinâmicas com candidatos sem deficiência e participou de uma “aula teste”, até conquistar a vaga. “Não é só uma questão de cota. É saber que aquela pessoa tem capacidade e condições de ocupar uma vaga na empresa”, afirma. O mesmo vale para quem é professor. “É preciso saber se a área na qual você atua é compatível com os talentos e o conhecimento que você tem”, dá a dica.

Além do trabalho de inclusão de professores com deficiência, o Senac São Paulo também desenvolve tecnologias próprias de acessibilidade (como janelas de libras personalizadas, audiodescrição, legendas, entre outros recursos, para vídeos, plataformas digitais e cursos online internos) e todas as suas unidades possuem um “representante da inclusão”: um funcionário que assume o objetivo de ampliar e a manter a inclusão de PCDs. Atualmente, o grupo é formado por 60 representantes.

“Entendemos que a cultura de inclusão e da diversidade é um valor essencial. Por esse motivo, nossas iniciativas têm impacto sobre a organização como um todo, passando por aspectos produtivos, de relacionamento e de promoção de ambientes de igualdade de oportunidades, no qual todos podem desenvolver seu potencial”, avalia Andreza Matsumoto, que também é da coordenação do Programa de Inclusão de Pessoas com Deficiência do Senac São Paulo.

Com isso, fica a reflexão: quem pode ser mais qualificado do que um professor? Afinal, é a qualificação para o cargo que deve ser levada em consideração na hora de contratar um novo funcionário. A qualificação das PCDs de todas as áreas de formação/atuação não é um mito e apenas com um pensamento inclusivo é possível garantir igualdade de oportunidades para todos, assim como determina a lei, e fazer com que docentes com e sem deficiência trabalhem juntos para criar uma educação cada vez melhor para essa e as próximas gerações.

Referências:

Nova Escola – Diversidade docente

GESTÃO DA ACESSIBILIDADE E INCLUSÃO: A EDUCAÇÃO INCLUSIVA SOB A ÓPTICA DE UM PROFESSOR PCD, por Eduardo da Silva Pereira, sob orientação da Profa. Dra. Sueli Donato

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