Inclusão

Relato sincero de um profissional (qualificado) com deficiência

Relato sincero de um profissional qualificado com deficiência

Trabalhei em uma multinacional por pouco mais de três anos, inclusive fazendo parte de um grupo que tratava de assuntos relacionados à diversidade nesta empresa e, percebo que salvo engano, há mais a questão de preenchimento de cotas com cargos de produção/operacional do que contratação de deficientes por empresas em cargos realmente importantes. Sei que eles existem, mas honestamente, como deficiente e profissional, me incomodo com a forma como isso ainda é encarado na mídia de forma glamorosa e como, de fato, é na realidade.

Atualmente estou desempregado e já enviei currículos para pelo menos umas 60 empresas e os contatos que recebo são de vagas para ganhar R$ 1000,00, R$ 1.300,00 e até (pasmem) R$ 670,00!!!

Tenho 45 anos de idade, sou deficiente há 25 anos, mas não necessito de adaptações ao ambiente de trabalho, tenho um filho pequeno e, além de ser analista de comunicação corporativa, também fui professor em uma conhecida faculdade, professor de publicidade em escola do ensino médio, especialidade na área de metalurgia – onde mais novo, atuei como ferramenteiro, ajustador mecânico e ainda fiz cursos de metrologia, pneumática, hidráulica, desenho técnico, CorelDraw, photoshop e Illustrator. Mais recentemente, fiz um curso intensivo de inglês para ter mais oportunidades no mercado, mas confesso, está bem complicado, e pouco tem a ver com a crise que o país atravessa!

Tenho cadastro na Catho, na iSocial, no Manager, Indeed e tantos outros sites e empresas que buscam o tal PCD, PNE, PPD e outras nomenclaturas que dão a pessoas como eu.

Certa vez, na empresa que trabalhei, convidamos um Coordenador de Diversidade de uma grande empresa para uma palestra e, nesta reunião, ele me disse que eu era o deficiente que toda empresa gostaria de ter, pois tinha formação, conteúdo e principalmente, não precisariam de investimentos estruturais para a minha contratação.

Concordo com ele, mas me decepciono com a realidade a partir do momento que envio um e-mail solicitando uma recolocação para 87 pessoas ligadas a empresas que apoiam a causa PCD/Lei de Cotas (tenho um mailling dessas pessoas, pois participava como membro da empresa em que atuava) e, destes 87  e-mails, apenas 1 pessoa me respondeu!!! Ou seja, as empresas querem incluir os deficientes ou apenas participam de workshops e feiras por questões de responsabilidade social para que conste no relatório anual da companhia e, com isso, valorize suas ações?

Em relação aos PCD’s contratados, as empresas os incluem também nos processos de capacitação e plano de carreira? Dão, de fato, oportunidades em nível de igualdade com os demais colaboradores ou pura e simplesmente cumprem as “cotas”? Quantos deficientes existem em cargos de liderança nas grandes empresas? Quantos anos um indivíduo necessita para ser promovido (ou visto) pelos seus gestores? Tenho a impressão de que essas vagas de cotas não são bem vistas por alguns dos empregados das empresas, pois passam a ideia de que temos algumas vantagens em relação aos demais, o que não é verdade, pois em alguns casos, o serviço executado é tão irrelevante que sequer somos vistos pelos gestores e analistas de outras áreas.

Falta envolvimento da direção que, por vezes, tem que “engolir” a Lei de Cotas para não prejudicar o orçamento com as multas que o governo aplica e isso causa um enorme constrangimento a quem ocupa a vaga.

Enfim, fica aqui meu desabafo e, quem sabe, esse texto sirva para a reflexão dos gestores das empresas e pessoas relacionadas ao universo das contratações de PCD’s.

6 Replies to “Relato sincero de um profissional (qualificado) com deficiência

  1. Bom dia caríssimos companheiros de luta, sou deficiente físico, o destino me levou a me tornar Advogado para agora ajudar a moralizar a questão da inclusão social da pessoa com deficiência, tenho conseguido punir através de ações judiciais as empresas que desrespeitam a Lei de Cotas pra deficiente e reabilitados do INSS, pena que a maioria dos deficientes que são demitidos não batam às portas do Judiciário para reclamar seus direitos, se os empresários não querem nos respeitar vamos obrigá-los a mudar esse comportamento.
    Acessem no facebook a fanpage PEDROSO SATIRO e verifiquem lá algumas das ações vitoriosas em face de grandes empresas onde a reintegração ao emprego e indenização foram alcançadas através da proteção advinda da garantia do pleno emprego inovado pela Lei de Cotas.
    Vamos processar sempre que houver demissão de um deficiente porque essa é a mais eficaz, pra não dizer única, ferramenta que possuímos contra o preconceito.

    Att;

    Dr. Angelo R. Pedroso Satiro
    (Advogado Especializado nos Direitos da Pessoa com Deficiência)
    (deficiente físico)

    1. DR. ANGELO ESTOU PASSANDO POR UM PROBLEMA SERIO NA EMPRESA QUE EU TRABALHO SOU DEFICIENTE MAIS VIVO AMEAÇADA JA FUI VITIMA DE PRECONCEITOS E PRECISO DE AJUDA .

  2. infelizmente esta é a realidade, me tornei deficiente fisica em 1991 e desde entao luto por um lugar ao sol.
    todas as empresas que trabalhei era nítido a contratação somente por cota.
    fui em uma entrevista na faculdade FMU e o entrevistador na entrevista falei sobre minhas experiencias , tenho graduação em Marketing e o entrevistador fingindo nao ouvir nada do que falei e sem ao menos ler o meu currículo, já me entregou toda a lista de documentos para me contratarem como assessora de elevador. Sai de lá me sentido humilhada.

  3. Ao ler este relato entendo perfeitamente o que sente o seu autor.
    Nasci cega e aos dois anos comecei a minha luta para reconhecer, com baixa visão, o mundo que insiste em me encarar como vítima. Hoje, sou vítima por não querer ser.

    Vítima porque, desde muito cedo, diziam que eu não ia nem aprender a ler e até hoje médicos e profissionais de RH me dizem: “Poxa que bacana, você tem oralidade”. Isso porque para ser deficiente meu caro, você tem que ser vítima,
    Eu também não preciso de adaptações, salvo um bom corretor ortográfico. Meu cérebro usa a Gestalt e “pensa” mais rápido que meus olhos. Então, se eu sou vítima, sou vítima do meu cérebro.
    Sou jornalista, com mais de uma década de experiência em comunicação, Sei trabalhar com quase, se não todos os programas de edição de áudio, texto e vídeo do mercado. Já passei em concurso federal sem “lei de cotas” (só não fui chamada), mas eu tenho que ser vítima.
    Acho que sou a única pessoa que, em um processo de seleção, é aprovada e quem ganha a vaga é qualquer um com um currículo “pior” que o meu. Já andei 360 km para ouvir: “Seu currículo é bom demais, você foi aprovada, mas o que podemos pagar não é conivente com sua formação”.
    Outro dia, em uma entrevista de emprego, o entrevistador me disse ter ficado curioso em me conhecer, porque eu era uma pérola, mas na hora do salário R$ 1.500,00 era demais. E meu MBA na Fundação Getúlio Vargas, não vale para nada?
    Ai todo mundo fala que deficientes não tem qualificação e eu tenho que ficar ouvindo que meu currículo é bom demais para a cidade onde eu moro. E ainda levar laudo para provar e atestar minha deficiência (isso até que e normal). Estou com um projeto de mestrado sobre esse assunto. Pesquisar e confrontar as “Ações Afirmativas” com a “Gestão da Diversidade”. Estou pensando em mandar para uma universidade, mas se com MBA já está difícil, onde então está o problema?
    Para desenvolver o projeto li alguns textos sobre o assunto e percebi que ainda há muitos mitos em relação a isso tudo. Agora, emprego que é bom, para mim, nada.

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